17 de setembro de 2010

Gostava de ônibus

Adorava ônibus. Tanto os urbanos quanto os rodoviários, mas mais os urbanos. Estes carregavam mais gente, e a variedade de modelos era maior. Quando criança, andava muito de ônibus. Naquela época, percebia que o piso era de madeira, com frisos de alumínio para dar mais resistência. Escorregava um pouco quando chovia. Os bancos, ao menos eram estofados. Na verdade, eram compostos de duas pranchas de madeira compensada, uma para o assento e outra para o encosto. Este tipo de banco não tinha divisão para as duas bundas sentarem, portanto era comum alguém se acomodar demais e ficar encostado no passageiro do lado.
Os ônibus eram bacanas. Gostava do cheiro de diesel que invadia o veículo, o motor dianteiro ao lado do motorista que esquentava barbaridade, mas se podia sentar em cima da sua tampa. Naquela época os ônibus começaram a ganhar nomes. Não apenas o do encarroçador, que podia ser a Ciferal, a Thamco, a Caio, Marcopolo ou Nielsen, mas dos modelos, precedidos pela palavra “padron”. Quem teria inventado este padrão? Daí surgiram os Padron Vitoria, Padron Rio, Padron Alvorada, Padron Amélia, dentre outros.
Por ser criança, passava debaixo da roleta. Claro que com o passar dos anos, era necessário abaixar cada vez mais, até o dia em que quase ficou entalado. Deste dia em diante, sua mãe passou a pagar sua passagem. Os ônibus rodoviários eram interessantes também, mas não era sempre que tinha oportunidade de andar num deles. Afinal de contas, não viajava sempre. Podia-se escolher um Marcopolo III, um Nielsen Diplomata ou um Mercedes 364.
Com o passar dos anos, as viagens acabaram se tornando tão ou mais interessantes que o veículo. Na adolescência, apesar do ônibus ainda despertar admiração, o mais interessante agora era o trajeto. O destino nem importava muito. O gostoso era ver a estrada, o mato passando rápido na lateral, e quando chovia forte, era sensacional se sentir seguro dentro do veículo, enquanto furava ferozmente a água e o vento. Quando parava no posto, comia rápido. Tinha medo de se atrasar, por isso logo voltava à plataforma e ficava ali, observando os detalhes da dianteira do ônibus. Se estivesse aberto, poderia observar atentamente o painel. O banco do motorista agora estava mais confortável. O espelho já não era mais aquela vara de ferro com o vidro preso no meio. Era uma bela peça inteiriça, feita de fibra, que descia pendurada da ponta do ônibus feito um vaso de samambaia sem folhas.
Quantas hora por dia trabalharia um motorista de ônibus? Quantas cidades diferentes ele visitaria por dia? Cada cidade com um clima, chuva, frio, sol, vento, poeira. É sempre uma surpresa descer do ônibus e não saber o tempo que te espera. O motorista talvez fosse mais feliz que ele. Dirigia o dia todo, sozinho. Era responsável pela vida de mais de 40 pessoas. Sempre havia uma moça bonita, ou uma mulher separada, mais experiente, ainda mais simpática. De noite, era possível avistar de longe o horizonte das médias e grandes cidades. Nas noites sem nuvens, as luzes eram claras e pequenas, cintilantes. Nas noites nubladas, a iluminação da cidade se tornava desfocada, subia ao céu, refletia nas nuvens e voltava, formando uma espécie de bolsão de brumas. Talvez umas 100 mil vidas vivessem ali naquela cidade. Nos prédios, nas casas. E quantos amores aquelas pessoas não teriam vivido? Mais ainda, quanto aquelas pessoas não estariam buscando a felicidade? Àquela hora da noite, haveria gente nas ruas. Noite quente. De dentro do ônibus imaginava os bares, os flertes que estariam ocorrendo naquele momento. Imaginava os homens casados, ajudando suas esposas com o jantar. Imaginava o mais sacana que, junto com a vizinha igualmente sacana, estariam aguardando silenciosamente o momento certo para se encontrarem num local escuro. Mas nunca pensava nos solitários. Isso certamente não lhe interessava. O que interessa é imaginar as coisas que não vivemos.
Normalmente, torcia para viajar sozinho no banco. Poucas vezes isto ocorreu. Na maioria das vezes viajou com pessoas quietas ao lado, que não incomodaram. Algumas vezes, com pessoas em busca de um psicoterapeuta, que tentaram engrenar conversa sobre suas vidas. Logo eram demovidas da ideia, ao perceberem o descaso das respostas e o sono no seu olho, que obviamente era fingido. Poucas, pouquíssimas vezes, viajou com uma jovem bonita ao seu lado. Na metade destas poucas vezes, simplesmente não houve conversa. Na sua tentativa de transmissão de pensamento, achava que ela iria tomar a iniciativa e iniciar um longo papo, o que nunca ocorreu. Na outra metade das vezes, iniciou um papo frouxo, desinteressante, que logo acabou. Claro, porque ele não poderia mostrar interesse. Não poderia incomodá-la com seu papo furado. Ela estava lá viajando, e não procurando amante, por isso seria extremamente deselegante atrapalhar sua jornada. Sendo assim, nunca conseguiu realizar seu sonho de conhecer alguém em trânsito, a noite, com as cortinas fechadas, no assento aveludado e extremamente macio do Marcopolo G6.
De qualquer modo, suas viagens já não eram tão constantes assim. Na sua última viagem, iria em direção ao centro do país. Sentia-se ligeiramente ansioso, já que vira a previsão de frente fria aproximando-se pelo sul, passando pelo oeste de Santa Catarina e do Paraná, e atingiria o interior. Essas frentes frias costumam causar muito vento e algumas trovoadas quando se encontram com o ar quente da região. Sua viagem seria de 600 quilômetros, mas desceu antes, uns 80 quilômetros antes, quando o ônibus parou na rodoviária de uma pequena cidade para deixar passageiros. Apenas duas pessoas desceram. Num pensamento rápido, desceu também. O ar era um pouco difícil de respirar. O vento úmido da frente fria misturava-se à secura e poeira do entorno, dando uma estranha sensação de abafamento. Sentiu-se desprotegido. A rodoviária era pequena, com apenas duas plataformas. Na verdade, o que se chama de plataforma é apenas um pátio (mal) asfaltado, com uma cobertura que se estendia a partir do pequeno prédio, cujo comprimento cobria apenas metade dos ônibus que ali paravam. Neste ar esquisito, sentiu-se confuso. Não voltou ao ônibus. O pátio era separado da rodovia apenas por um terreno baldio, com mato seco e baixo. Passou por ali, observando algumas sacolas plásticas e embalagens jogadas no chão, com suas cores bastante desbotadas pela ação do vento e sol forte. Chegou à estrada, de pista simples e acostamento de terra. Ficou bem na borda. As pontas dos seus pés tocavam o início do asfalto, este já bastante alto devido as inúmeras recapagens que sofrera. E ficou ali observando. Já não se podia ver o sol, obscurecido pelas nuvens que se aproximavam pesadas, em bloco. E ao fundo já se viam alguns raios. Alguns carros passaram, e era difícil se equilibrar com o deslocamento de vento que provocavam. Até que se desequilibrou, na coincidência de uma rajada de vento com o soar de um trovão. E caiu em direção a pista. Não se jogou, apenas caiu, seu corpo percorrendo um ângulo de 90 graus em relação aos seus pés, cujas pontas mantiveram-se encostadas à camada de asfalto. E veio um ônibus, em velocidade extremamente alta. O atropelamento foi inevitável. Era um Cometa, com carroceria Dinossauro. Foi rápido. E parte do seu corpo ficaria para sempre vinculada ao chassis daquele ônibus, sem que ninguém nunca percebesse.

1 de setembro de 2010

O novo urbanismo das construtoras

O Brasil vive uma boa fase na construção civil. Por todas as cidades se veem novos edifícios sendo construídos, na sua grande maioria residenciais. Seria uma grande oportunidade para exercitarmos o que temos de melhor em termos de arquitetura e urbanismo. Mas, na minha opinião, não é o que acontece.

Os lançamentos de médio e alto padrão adotaram um estilo “neoclássico de cores mediterrâneas”. Traduzindo, todos os prédios novos, para essa faixa de renda, são beges, com janelas brancas pequenas e sacadas que não se destacam dos demais materiais da fachada. Ao menos em São Paulo este é o padrão. Do ponto de vista mercadológico, isto até é explicável: o consumidor aqui é extremamente conservador em relação aos seus bens de consumo e duráveis. Na média, não se aceita o novo. Isto pode ser exemplificado pelos carros que se vendem aqui, somente nas cores preto e prata. Se alguém arriscar-se a comprar um carro azul, por exemplo, terá de ouvir que a cor é feia, que cansa e que será difícil de revender. Ninguém para para pensar que eu simplesmente possa gostar do azul, sem me importar com o valor ou facilidade de revenda. Aqui nós trocamos nossas convicções e gostos pessoais pela imposição da cultura da maioria. Sendo assim, por mais que você odeie carros pretos, sentirá medo de se arrepender por fugir do senso comum e não terá coragem de comprar de outra cor. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado à compra de apartamentos todos iguais, com um agravante: um imóvel é um bem durável, caro. Não se troca de casa todo ano. Mas, após esta longa introdução, não é este o ponto principal do texto.

É impressionante a falta de coordenação do poder público na grande São Paulo com relação ao desenvolvimento urbano dos bairros. Apesar de muito se falar, dos vereadores, secretários e assemelhados gastarem verbas oficiais em viagens a congressos de urbanismo e de todo ano sair nos jornais que as prefeituras irão atualizar os planos diretores, no dia a dia nada disto tem efeito. Um exemplo simples que pode ser visto por todos são os novos edifícios completamente murados em volta. Alguns empreendimentos ocupam meio ou quarteirão inteiro, e é incrível que se isolem totalmente do bairro ao redor com muros de mais de dois metros. A desculpa é o blá blá blá de sempre: os moradores exigem segurança, por isso têm de morar numa fortaleza inexpugnável. Mas esta solução é uma meia verdade. Esses muros enormes deixam a calçada vazia e escura, esconderijo mais do que óbvio para quem tem más intenções. E os moradores, com medo, passam a evitar o local.

Atendendo aos anseios de segurança da população, as construtoras perdem grande oportunidade de modificar a estrutura física da cidade, com soluções que terminariam por modificar também a estrutura social de um bairro. Prédios têm de ter áreas de convivência não apenas para seus moradores, mas integradas ao bairro. É inaceitável que empreendimentos imensos, como um condomínio ao final da avenida Kennedy, em São Caetano do Sul, ocupe enorme terreno, coisa que, numa cidade como esta, é bastante escassa. Ok, entendo que os moradores tenham medo de invasões de drogados, crianças más, de depredações, portanto não queiram que o espaço térreo do condomínio seja aberto integrado à rua. Neste caso, o poder público tem de assumir seu papel de balizador e, por exemplo, exigir que empreendimentos com terreno acima de x mil metros sejam obrigados a destinar 10 ou 15% do espaço a praças públicas. Pronto, o prédio continua murado e cercado, mas pelo menos um pequeno espaço é doado à cidade.

Outra observação na minha opinião deixa claro que, ao contrário do que dizem as revistas e jornais de negócios, os gestores de grandes construtoras talvez não sejam tão geniais assim. Um exemplo é a perda da oportunidade de criar salões comerciais na parte de baixo dos edifícios, como se fazia até os anos 70. A rua Amazonas, em São Caetano do Sul, é zona mista comercial/residencial. Estão em construção diversos prédios, a maioria com frente para ruas laterais. O que ocorre é que a parte de trás dos terrenos foi fechada com muros enormes que, como já foi dito, além de segregarem a rua, poderiam abrigar pequenos salões comerciais que valorizariam o bairro e serviriam à própria população moradora do prédio. E desta vez não existe a desculpa do medo. Estes salões não teriam conexão física alguma com o edifício, apenas ocupariam um pequeno espaço do terreno e, com a receita dos alugueis, o condomínio poderia ser bem mais baixo. Não creio que a existência destes salões desvalorizaria a elegância do lançamento. Considerando a quantidade de anos que os stands estão montados, funcionando de domingo a domingo, é de se questionar o sucesso de vendas destes empreendimentos. Embora o quadro na parede esteja todo cravejado de alfinetes coloridos, sempre é possível obter uma unidade “que estava reservada mas o comprador acabou de desistir”. Outro exemplo ocorre na avenida Anhaia Mello, na Vila Prudente. Dois terrenos imensos, de tamanhos que seriam impensáveis em bairros mais centrais, transformaram-se em condomínios residenciais. Pois bem: a Anhaia Mello tem trânsito parado 24 horas por dia, caminhões, MUITA poluição (inclusive sonora). O lançamento de prédios de alto padrão simplesmente não combina com a avenida. Além disso, a região tem comércio fraco, basicamente composto por lojas de automóveis. Novamente, a lentidão na retirada dos stands de venda dão a dica de que o administrador responsável pelo lançamento não foi tão genial assim. Tivesse feito um centro comercial (mini shopping), em que se pudesse entrar com seu carro, com farmácia, loja de conveniência, padaria, locadora ou o que quer que seja, talvez tivesse vendido muito mais rápido (ou mesmo alugado, com renda para o resto da vida). A avenida das Américas, na Barra da Tijuca (Rio) tem ótimos exemplos de mini centros comerciais. No entanto, a genialidade dos empreendedores paulistas os levou a construir apartamentos grandes, caros, com grande área comum (aos moradores) que não condizem com a realidade do bairro, tampouco com a beleza e ar puro da avenida em que estão localizados.

A cidade é feita e deve ser vivida por todos. Um dos causadores da sensação de insegurança em São Paulo é justamente o isolamento das residências com a rua. Exceto na periferia, em São Paulo as famílias não têm o costume de ficar ao ar livre. Todo mundo acha as galerias do centro da cidade e da avenida Paulista maravilhosas, mas nos bairros perde-se a oportunidade de fazer igual (obviamente em menores proporções, com comércios simples). Além disso, o isolamento de ruas por muros enormes é lamentável, contribuindo para que uma cidade já sem nenhum atrativo arquitetônico, como São Caetano, se torne ainda mais árida e sem vida. É óbvio que não se deve esperar esse tipo de iniciativa urbanística por parte das construtoras, mas é dever do poder público induzir estas melhorias, o que tem sido constantemente negligenciado.