O Brasil vive uma boa fase na construção civil. Por todas as cidades se veem novos edifícios sendo construídos, na sua grande maioria residenciais. Seria uma grande oportunidade para exercitarmos o que temos de melhor em termos de arquitetura e urbanismo. Mas, na minha opinião, não é o que acontece.
Os lançamentos de médio e alto padrão adotaram um estilo “neoclássico de cores mediterrâneas”. Traduzindo, todos os prédios novos, para essa faixa de renda, são beges, com janelas brancas pequenas e sacadas que não se destacam dos demais materiais da fachada. Ao menos em São Paulo este é o padrão. Do ponto de vista mercadológico, isto até é explicável: o consumidor aqui é extremamente conservador em relação aos seus bens de consumo e duráveis. Na média, não se aceita o novo. Isto pode ser exemplificado pelos carros que se vendem aqui, somente nas cores preto e prata. Se alguém arriscar-se a comprar um carro azul, por exemplo, terá de ouvir que a cor é feia, que cansa e que será difícil de revender. Ninguém para para pensar que eu simplesmente possa gostar do azul, sem me importar com o valor ou facilidade de revenda. Aqui nós trocamos nossas convicções e gostos pessoais pela imposição da cultura da maioria. Sendo assim, por mais que você odeie carros pretos, sentirá medo de se arrepender por fugir do senso comum e não terá coragem de comprar de outra cor. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado à compra de apartamentos todos iguais, com um agravante: um imóvel é um bem durável, caro. Não se troca de casa todo ano. Mas, após esta longa introdução, não é este o ponto principal do texto.
É impressionante a falta de coordenação do poder público na grande São Paulo com relação ao desenvolvimento urbano dos bairros. Apesar de muito se falar, dos vereadores, secretários e assemelhados gastarem verbas oficiais em viagens a congressos de urbanismo e de todo ano sair nos jornais que as prefeituras irão atualizar os planos diretores, no dia a dia nada disto tem efeito. Um exemplo simples que pode ser visto por todos são os novos edifícios completamente murados em volta. Alguns empreendimentos ocupam meio ou quarteirão inteiro, e é incrível que se isolem totalmente do bairro ao redor com muros de mais de dois metros. A desculpa é o blá blá blá de sempre: os moradores exigem segurança, por isso têm de morar numa fortaleza inexpugnável. Mas esta solução é uma meia verdade. Esses muros enormes deixam a calçada vazia e escura, esconderijo mais do que óbvio para quem tem más intenções. E os moradores, com medo, passam a evitar o local.
Atendendo aos anseios de segurança da população, as construtoras perdem grande oportunidade de modificar a estrutura física da cidade, com soluções que terminariam por modificar também a estrutura social de um bairro. Prédios têm de ter áreas de convivência não apenas para seus moradores, mas integradas ao bairro. É inaceitável que empreendimentos imensos, como um condomínio ao final da avenida Kennedy, em São Caetano do Sul, ocupe enorme terreno, coisa que, numa cidade como esta, é bastante escassa. Ok, entendo que os moradores tenham medo de invasões de drogados, crianças más, de depredações, portanto não queiram que o espaço térreo do condomínio seja aberto integrado à rua. Neste caso, o poder público tem de assumir seu papel de balizador e, por exemplo, exigir que empreendimentos com terreno acima de x mil metros sejam obrigados a destinar 10 ou 15% do espaço a praças públicas. Pronto, o prédio continua murado e cercado, mas pelo menos um pequeno espaço é doado à cidade.
Outra observação na minha opinião deixa claro que, ao contrário do que dizem as revistas e jornais de negócios, os gestores de grandes construtoras talvez não sejam tão geniais assim. Um exemplo é a perda da oportunidade de criar salões comerciais na parte de baixo dos edifícios, como se fazia até os anos 70. A rua Amazonas, em São Caetano do Sul, é zona mista comercial/residencial. Estão em construção diversos prédios, a maioria com frente para ruas laterais. O que ocorre é que a parte de trás dos terrenos foi fechada com muros enormes que, como já foi dito, além de segregarem a rua, poderiam abrigar pequenos salões comerciais que valorizariam o bairro e serviriam à própria população moradora do prédio. E desta vez não existe a desculpa do medo. Estes salões não teriam conexão física alguma com o edifício, apenas ocupariam um pequeno espaço do terreno e, com a receita dos alugueis, o condomínio poderia ser bem mais baixo. Não creio que a existência destes salões desvalorizaria a elegância do lançamento. Considerando a quantidade de anos que os stands estão montados, funcionando de domingo a domingo, é de se questionar o sucesso de vendas destes empreendimentos. Embora o quadro na parede esteja todo cravejado de alfinetes coloridos, sempre é possível obter uma unidade “que estava reservada mas o comprador acabou de desistir”. Outro exemplo ocorre na avenida Anhaia Mello, na Vila Prudente. Dois terrenos imensos, de tamanhos que seriam impensáveis em bairros mais centrais, transformaram-se em condomínios residenciais. Pois bem: a Anhaia Mello tem trânsito parado 24 horas por dia, caminhões, MUITA poluição (inclusive sonora). O lançamento de prédios de alto padrão simplesmente não combina com a avenida. Além disso, a região tem comércio fraco, basicamente composto por lojas de automóveis. Novamente, a lentidão na retirada dos stands de venda dão a dica de que o administrador responsável pelo lançamento não foi tão genial assim. Tivesse feito um centro comercial (mini shopping), em que se pudesse entrar com seu carro, com farmácia, loja de conveniência, padaria, locadora ou o que quer que seja, talvez tivesse vendido muito mais rápido (ou mesmo alugado, com renda para o resto da vida). A avenida das Américas, na Barra da Tijuca (Rio) tem ótimos exemplos de mini centros comerciais. No entanto, a genialidade dos empreendedores paulistas os levou a construir apartamentos grandes, caros, com grande área comum (aos moradores) que não condizem com a realidade do bairro, tampouco com a beleza e ar puro da avenida em que estão localizados.
A cidade é feita e deve ser vivida por todos. Um dos causadores da sensação de insegurança em São Paulo é justamente o isolamento das residências com a rua. Exceto na periferia, em São Paulo as famílias não têm o costume de ficar ao ar livre. Todo mundo acha as galerias do centro da cidade e da avenida Paulista maravilhosas, mas nos bairros perde-se a oportunidade de fazer igual (obviamente em menores proporções, com comércios simples). Além disso, o isolamento de ruas por muros enormes é lamentável, contribuindo para que uma cidade já sem nenhum atrativo arquitetônico, como São Caetano, se torne ainda mais árida e sem vida. É óbvio que não se deve esperar esse tipo de iniciativa urbanística por parte das construtoras, mas é dever do poder público induzir estas melhorias, o que tem sido constantemente negligenciado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário