Neste ano de 2010 estive no Salão do Automóvel. Sem sombra de dúvida, os carros que mais atraíram minha atenção foram os chineses, presentes em profusão. Tentarei lembrar todas as marcas: Effa, Lifan, Chana, Haima, Chery, MG, JAC, Brilliance (CN Auto)... a variedade é bem grande. Provavelmente não são todos que sobreviverão no mercado brasileiro. Alguns pela total falta da qualidade de construção necessária para concorrer com os nacionais. Outras, ainda que tenham qualidade razoável, talvez não atinjam volume que justifique manter as operações apenas via importação, já que uma das maiores dificuldades para penetração no mercado é a criação de rede de distribuição e assistência técnica, pois o Brasil é muito grande.
O mercado de automóveis é muito diferente do mercado de pequenos utilitários, no qual concorrem a Chana, a Effa e a CN Auto. O consumidor de automóveis é chato, reclama de barulhos as vezes inexistentes, e além disso tem de mostrar o carro novo ao vizinho. Por isso é essencial que o chinês seja minimamente desejável, não pode ser mero meio de condução, embora obviamente exista um nicho de consumidores utilitaristas que se importam mais com o uso que com o prestígio. Pois bem, vamos às observações de que me recordo:
Effa e Lifan
Além dos pequenos utilitários, foi uma das pioneiras no mercado brasileiro (a primeira, creio eu) a vender seu carro chinês, o M100, duramente criticado pela revista Quatro Rodas. O carrinho me pareceu bem montado, frente aos seus concorrentes de mesma origem. Ótimo espaço interno, painel agradável, e agora conta com direção elétrica, item que fazia falta nos modelos anteriores (2008 e 2009). O motor é Suzuki, que garante que pelo menos nesse item o carro não deve ter grandes problemas. Curiosamente, não conta com limpador nem desembaçador traseiros. Os bancos são coloridos e o interior é em cinza claro, e o exemplar exposto no salão contava com um indefectível rádio toca-fitas, com as instruções nos botões em chinês. A suspensão traseira é por eixo rígido.
Em outro stand estavam os carros da Lifan, trazidos também pela Effa. O Lifan 620 é uma cópia do Corolla antigo, de interior classudo com apliques de madeira. Sua qualidade de montagem não é das melhores. As lanternas traseiras têm rebarbas internas que podem cortar a mão de quem tentar lavar os cantos entre a tampa e o porta-malas. Mas a aparência geral convence, e o preço é bom. Informações no site do fabricante na China dão conta que seu motor 1.6 é de origem Tritec, o mesmo que a Fiat usa atualmente sob o nome de Etorq. Não sei se os modelos vendidos no Brasil contam com esse mesmo motor ou se são de projeto Lifan. No mesmo stand está o médio 520, que já havia sido exposto em 2008 mas que até agora não teve as vendas iniciadas. O visual é meio datado, e a qualidade de montagem é inaceitável para os padrões ocidentais. Lamentavelmente terá poucas chances no mercado nacional, ainda que conte com bom preço. É importante deixar claro que falhas aparentes de montagem não significam que o carro vá se desmontar. A Kombi e o Mille são carros com vãos de chapa totalmente desalinhados, alguns em que se podem colocar todos os dedos da mão, e ainda assim são campeões de resistência. Mas são carros de nicho com público cativo, não têm de provar mais nada aos seus compradores. E tem o 320, a cópia do Mini Cooper... bom, na minha opinião esse é, de longe, o chinês mais rústico dentre todos os que vi no salão. Acabamento com plásticos lastimáveis, embreagem extremamente curta com câmbio duro. O acelerador do veículo em exposição já havia quebrado (creio que o cabo deva ter se rompido). Seu comprador terá de ser bastante corajoso.
Jac
A marca está sendo trazida pelo sr. Sérgio Habib, o mesmo responsável pela introdução da Citröen no Brasil e que hoje é responsável pela marca Jaguar, dentre outras. Isso logo de cara tem duas implicações: uma delas significa seriedade no trato da marca, com boa assistência técnica e garantia de peças de reposição; a outra é que, apesar de garantir a disponibilidade de peças, elas provavelmente custarão um absurdo (é sempre bom lembrar que na China as peças de reposição devem custar uma mixaria). De acordo com informações, o J3, de porte similar ao Gol, deverá custar por volta de R$ 37.000,00. É muito para um carro chinês, por mais completo e melhor que ele seja. Mas concordo que, após o lançamento, se o mercado julgar o valor alto, é sempre mais fácil reduzi-lo que aumenta-lo. Logo de cara, causa estranheza a elevada suspensão do carro, que deixa as caixas de roda muito vazias. Talvez seja bom para enfrentar o péssimo asfalto brasileiro, bem como obstáculos e estradas de terra. A qualidade de construção pareceu aceitável, apenas alguns detalhes destoam, como a falta de verniz na pintura das colunas traseiras internas, onde se assenta a tampa do porta-malas. O painel é futurista, com o velocímetro sobreposto ao conta giros, e iluminado num azul bastante forte. Detalhe estranho é o acabamento embaixo do rádio, um chapa plástica presa com dois parafusos aparentes horrorosos. Não sei se é item de série, ou uma gambiarra para instalar o rádio de tamanho normal, já que o nicho no painel a mim parece ser para rádios double DIN. Em termos de desenho, me pareceu a linha de automóveis chineses mais coerente, em que se podem observar elementos de design comum a todos os veículos. Nas demais marcas os veículos parecem não ter parentesco nenhum, dando a impressão que poderiam ser vendidos sob o nome de qualquer montadora.
Haima
Infelizmente não pude observar com a devida atenção os carros da marca. Me parecem ser baseados em Mazda de gerações antigas. Caso seja verdade, é um grande mérito, já que os Mazda concorrem em pé de igualdade com seus pares japoneses.
Chana
Impossível não mencionar as piadas com o nome da montadora, feitas aos montes durante a visitação. Pessoas entrando na Chana, algumas achando a Chana apertada, outras nem tanto... bom, o que me impressionou na linha Benni foi a solidez ao fechar as portas, que dá impressão de carro superior, mesmo no pequeno Benni Mini, que por sinal tem um design bastante diferente e que deve agradar, a despeito do alto preço. Interessante observar que a suspensão traseira tem eixo rígido e barra panhard, que parece ser padrão nos pequenos chineses. A dianteira tem o mesmo esquema do Fiat Uno (antigo), com braço único ligado à estrutura e cujo alinhamento da roda depende da barra estabilizadora. Impossível afirmar, sem testar o carro, se isso é bom ou ruim. No mesmo stand estava a família Alsvin, com diversos modelos. Detalhe que me chamou a atenção foi a junção do arco superior da porta, a moldura do vidro, com a parte inferior, base da porta. Em alguns modelos a porta e cortada em chapa única, em outros o arco superior é soldado, até aí tudo bem. Mas no Alsvin, a solda era grosseira, com cara de portão de garagem feito em serralheria. A solda foi simplesmente lixada e passou-se a tinta por cima...
Brilliance
Impressionante. Não consegui achar um defeito nos carros. A pintura é linda, bem como o acabamento. Talvez por ter percebido o nível de qualidade, a importadora deverá vendê-los por preços bem acima do que se espera de um carro chinês.
Chery
Na minha opinião, é uma das chinesas que veio para ficar. A(s) outra(s) não sei quem será(ão). Todos os modelos têm nível ocidental de construção, com junções de chapa bem feitas e borrachas bem coladas. O Face tem interior extremamente agradável, com painel em cinza claro e bancos também em cinza e amarelo. Diz-se que a Chery é a única montadora realmente chinesa, em que não houve anteriormente joint venture com nenhuma outra marca. Do Face, o único defeito que vi foi o pedal da embreagem já um pouco solto, fazendo movimentos laterais. O QQ, bem... o QQ é simpaticíssimo, e sua cara de bebê agrada em cheio as mulheres. Os bancos do modelo exposto eram em veludo grosso, pareciam um sofá. E, incrível, o interior do carro é INTEIRO em bege. Eu pessoalmente gosto bastante, embora com o tempo deva ficar difícil esconder o encardido. O Cielo me parece um carro médio plenamente apto a concorrer com os nacionais, como Astra, Golf ou Stilo (que já saiu de linha). Não ousaria afirmar que é tão bom quanto um Focus, mas a diferença de preço talvez compense.