16 de novembro de 2010

Fiesta, Logan e Sandero automáticos?

Graças à internet, podemos comparar os carros vendidos mundo afora com os modelos brasileiros. Em 99% dos casos, os veículos vendidos no exterior são muito mais equipados, seguros e obviamente mais baratos. Mas tratarei do caso específico do câmbio automático, presente nos Fiesta, Logan e Sandero vendidos no México (lembrando que o Logan é vendido lá sob a marca Nissan, com o nome de Aprio).

Inexplicavelmente, no Brasil não há opção de câmbio automático para esses modelos, justamente no momento em que o mercado nacional mais cresce. Ok, concordo que cresce apenas em volume de vendas, não em qualidade dos veículos. Mas o alto volume por si só já justificaria a oferta do automático, já que a chance de haver consumidores interessados é maior. Tanto é assim que Volkswagen, Fiat e GM se desdobraram para ofertar os câmbios automatizados (iMotion, Easytronic, etc), que têm funcionamento inferior a um automático convencional. Isto prova que, sim, há demanda para o equipamento no país, especialmente nas grandes cidades. Fico imaginando os argumentos que os departamentos de marketing/vendas da Ford e Renault usam para não oferecer câmbio automático nos modelos mencionados:

1) Não há demanda
Há sim, basta observar a quantidade de automatizados VW, GM e Fiat que rodam pelas ruas de São Paulo e de outras grandes cidades.

2) O consumidor não aceita pagar o preço do equipamento
Aceita sim, vide resposta acima. E de qualquer maneira, considerando que o equipamento já faz parte das linhas de montagem (apenas para os veículos de exportação), ainda que se vendesse apenas uma unidade por mês com câmbio automático, já seria lucro.

3) É difícil adaptar o câmbio automático ao motor flex
Desculpa esfarrapada

4) É necessário gastar com treinamentos para a rede de assistência
Sempre achei que a Ford já vendesse Ecosports, Focus e Fusions automáticos, bem como a Renault o Mégane e outros modelos. A rede por acaso não foi treinada para dar assistência a estes veículos?

5) A caixa de câmbio é importada, complicando a logística de produção
Pode ser... mas é para isso que os funcionários são pagos, para resolver os problemas que eventualmente surgem. Além disso, com o dólar despencando, esses equipamentos chegam num preço bastante competitivo.

6) É necessário gastar com a divulgação da implementação do novo opcional
Não é. Basta que os vendedores estejam cientes de que há esta nova opção e sejam capazes de oferecê-la aos potenciais clientes. É interessante lembrar que durante os anos 80 e 90 a GM manteve o câmbio automático como opcional em todos os seus modelos: do Chevette, passando pelo Kadett, Opala, Monza, Corsa, Astra, Vectra, etc, sendo que não me recordo de ação de marketing específica de destaque para oferta de câmbio automático nestes veículos.

Além do já exposto, há um segmento de mercado ignorado por estas duas montadoras, o de carros para deficientes físicos. A oferta de veículos mais baratos, com câmbio automático, é sempre bem vinda para este nicho de consumidores.

É realmente esquisito que Ford e Renault tenham um trunfo nas mãos e não o utilizem no mercado brasileiro. Ou é incompetência, ou falta de respeito com o consumidor – coisa, aliás, com a qual infelizmente estamos acostumados, por parte das montadoras “nacionais”.

15 de novembro de 2010

Sobre carros chineses 2 - segurança

Um dos grandes argumentos dos que desconfiam dos carros chineses é em relação à segurança passiva, no caso de colisões. As revistas do ramo têm batido bastante nesta tecla. Em alguns fóruns de internet, pessoas chegam a comentar que “dirigir esses carros é como dirigir o próprio caixão”, dentre outras delicadezas. O que me surpreende, não no discurso das revistas, mas no dos possíveis clientes, é essa súbita preocupação com segurança, num mercado em que se sabe que a importância dada a este quesito na compra de um automóvel é próxima de zero. Afinal, entre um jogo de rodas de liga leve um um par de air bags, creio que uns 90% dos compradores escolham o primeiro.

Quanto aos testes de colisão, acho que a maioria dos chineses deve ser ruim mesmo. Mas não acho que sejam piores que boa parte dos carros nacionais. Não faz sentido a pessoa achar que um chinês é um “caixão sobre rodas” e depois dirigir um Mille ou uma Kombi. Há outros casos, como o Celta, Ecosport, Novo Uno, Agile, dentre outros modelos de projeto nacional, que não seguem os padrões internacionais de segurança. E, como no Brasil por enquanto crash tests não são obrigatórios, só Deus sabe o quanto esses carros são melhores ou piores que os chineses. Mas uma coisa é certa: os chineses estão dispostos a acertar. Diferentemente das montadoras nacionais, que levam séculos para implantar melhorias nos veículos (normalmente são “piorias”, como a depenagem de equipamentos), os asiáticos respondem muito rápido às exigências do mercado. Como ainda concorrem de maneira muito tímida na Europa, e praticamente não existem nos EUA, talvez não tenham tido retorno suficiente das minúcias exigidas pelos clientes. Mas com a entrada forte no mercado brasileiro, o quarto maior do mundo, talvez tenham um bom balão de ensaio para melhorias em termos de durabilidade e robustez, e quem sabe até de segurança, agora que este item parece ter entrado em discussão.

Sobre carros chineses

Neste ano de 2010 estive no Salão do Automóvel. Sem sombra de dúvida, os carros que mais atraíram minha atenção foram os chineses, presentes em profusão. Tentarei lembrar todas as marcas: Effa, Lifan, Chana, Haima, Chery, MG, JAC, Brilliance (CN Auto)... a variedade é bem grande. Provavelmente não são todos que sobreviverão no mercado brasileiro. Alguns pela total falta da qualidade de construção necessária para concorrer com os nacionais. Outras, ainda que tenham qualidade razoável, talvez não atinjam volume que justifique manter as operações apenas via importação, já que uma das maiores dificuldades para penetração no mercado é a criação de rede de distribuição e assistência técnica, pois o Brasil é muito grande.

O mercado de automóveis é muito diferente do mercado de pequenos utilitários, no qual concorrem a Chana, a Effa e a CN Auto. O consumidor de automóveis é chato, reclama de barulhos as vezes inexistentes, e além disso tem de mostrar o carro novo ao vizinho. Por isso é essencial que o chinês seja minimamente desejável, não pode ser mero meio de condução, embora obviamente exista um nicho de consumidores utilitaristas que se importam mais com o uso que com o prestígio. Pois bem, vamos às observações de que me recordo:

Effa e Lifan

Além dos pequenos utilitários, foi uma das pioneiras no mercado brasileiro (a primeira, creio eu) a vender seu carro chinês, o M100, duramente criticado pela revista Quatro Rodas. O carrinho me pareceu bem montado, frente aos seus concorrentes de mesma origem. Ótimo espaço interno, painel agradável, e agora conta com direção elétrica, item que fazia falta nos modelos anteriores (2008 e 2009). O motor é Suzuki, que garante que pelo menos nesse item o carro não deve ter grandes problemas. Curiosamente, não conta com limpador nem desembaçador traseiros. Os bancos são coloridos e o interior é em cinza claro, e o exemplar exposto no salão contava com um indefectível rádio toca-fitas, com as instruções nos botões em chinês. A suspensão traseira é por eixo rígido.

Em outro stand estavam os carros da Lifan, trazidos também pela Effa. O Lifan 620 é uma cópia do Corolla antigo, de interior classudo com apliques de madeira. Sua qualidade de montagem não é das melhores. As lanternas traseiras têm rebarbas internas que podem cortar a mão de quem tentar lavar os cantos entre a tampa e o porta-malas. Mas a aparência geral convence, e o preço é bom. Informações no site do fabricante na China dão conta que seu motor 1.6 é de origem Tritec, o mesmo que a Fiat usa atualmente sob o nome de Etorq. Não sei se os modelos vendidos no Brasil contam com esse mesmo motor ou se são de projeto Lifan. No mesmo stand está o médio 520, que já havia sido exposto em 2008 mas que até agora não teve as vendas iniciadas. O visual é meio datado, e a qualidade de montagem é inaceitável para os padrões ocidentais. Lamentavelmente terá poucas chances no mercado nacional, ainda que conte com bom preço. É importante deixar claro que falhas aparentes de montagem não significam que o carro vá se desmontar. A Kombi e o Mille são carros com vãos de chapa totalmente desalinhados, alguns em que se podem colocar todos os dedos da mão, e ainda assim são campeões de resistência. Mas são carros de nicho com público cativo, não têm de provar mais nada aos seus compradores. E tem o 320, a cópia do Mini Cooper... bom, na minha opinião esse é, de longe, o chinês mais rústico dentre todos os que vi no salão. Acabamento com plásticos lastimáveis, embreagem extremamente curta com câmbio duro. O acelerador do veículo em exposição já havia quebrado (creio que o cabo deva ter se rompido). Seu comprador terá de ser bastante corajoso.

Jac

A marca está sendo trazida pelo sr. Sérgio Habib, o mesmo responsável pela introdução da Citröen no Brasil e que hoje é responsável pela marca Jaguar, dentre outras. Isso logo de cara tem duas implicações: uma delas significa seriedade no trato da marca, com boa assistência técnica e garantia de peças de reposição; a outra é que, apesar de garantir a disponibilidade de peças, elas provavelmente custarão um absurdo (é sempre bom lembrar que na China as peças de reposição devem custar uma mixaria). De acordo com informações, o J3, de porte similar ao Gol, deverá custar por volta de R$ 37.000,00. É muito para um carro chinês, por mais completo e melhor que ele seja. Mas concordo que, após o lançamento, se o mercado julgar o valor alto, é sempre mais fácil reduzi-lo que aumenta-lo. Logo de cara, causa estranheza a elevada suspensão do carro, que deixa as caixas de roda muito vazias. Talvez seja bom para enfrentar o péssimo asfalto brasileiro, bem como obstáculos e estradas de terra. A qualidade de construção pareceu aceitável, apenas alguns detalhes destoam, como a falta de verniz na pintura das colunas traseiras internas, onde se assenta a tampa do porta-malas. O painel é futurista, com o velocímetro sobreposto ao conta giros, e iluminado num azul bastante forte. Detalhe estranho é o acabamento embaixo do rádio, um chapa plástica presa com dois parafusos aparentes horrorosos. Não sei se é item de série, ou uma gambiarra para instalar o rádio de tamanho normal, já que o nicho no painel a mim parece ser para rádios double DIN. Em termos de desenho, me pareceu a linha de automóveis chineses mais coerente, em que se podem observar elementos de design comum a todos os veículos. Nas demais marcas os veículos parecem não ter parentesco nenhum, dando a impressão que poderiam ser vendidos sob o nome de qualquer montadora.

Haima

Infelizmente não pude observar com a devida atenção os carros da marca. Me parecem ser baseados em Mazda de gerações antigas. Caso seja verdade, é um grande mérito, já que os Mazda concorrem em pé de igualdade com seus pares japoneses.

Chana

Impossível não mencionar as piadas com o nome da montadora, feitas aos montes durante a visitação. Pessoas entrando na Chana, algumas achando a Chana apertada, outras nem tanto... bom, o que me impressionou na linha Benni foi a solidez ao fechar as portas, que dá impressão de carro superior, mesmo no pequeno Benni Mini, que por sinal tem um design bastante diferente e que deve agradar, a despeito do alto preço. Interessante observar que a suspensão traseira tem eixo rígido e barra panhard, que parece ser padrão nos pequenos chineses. A dianteira tem o mesmo esquema do Fiat Uno (antigo), com braço único ligado à estrutura e cujo alinhamento da roda depende da barra estabilizadora. Impossível afirmar, sem testar o carro, se isso é bom ou ruim. No mesmo stand estava a família Alsvin, com diversos modelos. Detalhe que me chamou a atenção foi a junção do arco superior da porta, a moldura do vidro, com a parte inferior, base da porta. Em alguns modelos a porta e cortada em chapa única, em outros o arco superior é soldado, até aí tudo bem. Mas no Alsvin, a solda era grosseira, com cara de portão de garagem feito em serralheria. A solda foi simplesmente lixada e passou-se a tinta por cima...

Brilliance

Impressionante. Não consegui achar um defeito nos carros. A pintura é linda, bem como o acabamento. Talvez por ter percebido o nível de qualidade, a importadora deverá vendê-los por preços bem acima do que se espera de um carro chinês.

Chery

Na minha opinião, é uma das chinesas que veio para ficar. A(s) outra(s) não sei quem será(ão). Todos os modelos têm nível ocidental de construção, com junções de chapa bem feitas e borrachas bem coladas. O Face tem interior extremamente agradável, com painel em cinza claro e bancos também em cinza e amarelo. Diz-se que a Chery é a única montadora realmente chinesa, em que não houve anteriormente joint venture com nenhuma outra marca. Do Face, o único defeito que vi foi o pedal da embreagem já um pouco solto, fazendo movimentos laterais. O QQ, bem... o QQ é simpaticíssimo, e sua cara de bebê agrada em cheio as mulheres. Os bancos do modelo exposto eram em veludo grosso, pareciam um sofá. E, incrível, o interior do carro é INTEIRO em bege. Eu pessoalmente gosto bastante, embora com o tempo deva ficar difícil esconder o encardido. O Cielo me parece um carro médio plenamente apto a concorrer com os nacionais, como Astra, Golf ou Stilo (que já saiu de linha). Não ousaria afirmar que é tão bom quanto um Focus, mas a diferença de preço talvez compense.