Estava andando na rua, à minha frente um rapaz forte, na faixa dos 30 anos. Ele abriu um maço de cigarros e jogou o plástico no chão, como uma criança abrindo um chocolate. Obviamente achei a cena lamentável, assim como algumas outras pessoas ao meu redor. Mas ninguém, nem eu, disse nada. Fiquei imaginando uma possível conversa:
- Amigo, você jogou o plástico no chão.
- Sim, e daí?
- Daí que você acha certo jogar lixo no chão?
- Acho, e daí?
Deste ponto em diante, a conversa certamente se tornaria infrutífera. Eu poderia declamar como o ato de jogar lixo na rua é execrável, as enchentes, o exemplo que as crianças devem ter, etc., etc. Poderia inclusive chamá-lo de ignorante, afinal de contas, eu estava com toda razão, e ele, obviamente, errado. Mas ele poderia simplesmente dar um soco na minha cara. Não seria nada difícil. Forte, visual de pitboy de poucos amigos, camiseta agarrada. E aí eu ficaria sem alguns dentes, e continuaria sem convencê-lo de que o ato que cometera era incorreto.
Como “dialogar” com a violência? Existe alguma maneira da idéia debater com a agressão física? A violência é o recurso final de uma discussão acalorada. Quando uma discussão termina em agressão, dá-se por encerrada, especialmente se a parte agredida é muito mais fraca, fisicamente, que o agressor. E nesta discussão eu sairia perdendo, mesmo coberto de razão. Situação análoga é comum em batidas de automóvel. Alguém pode bater no meu carro enquanto estou parado. Pois bem, a pessoa que bateu pode sair, gritando, alegando que a culpa era minha, por estar parado, por não ligar a lanterna, ou qualquer outro argumento utilizado por quem não tem razão. O que fazer se o culpado é muito mais forte que eu? O diálogo é impraticável. Há um tipo de pessoa incapaz de assumir qualquer culpa, por mais evidente que esta seja – e no Brasil essas pessoas existem aos montes. O causador do acidente poderia simplesmente me bater. Eu ficaria, novamente, com a cara inchada e o carro batido.
Para ambos os casos a justiça talvez fosse uma saída. Seria necessário colher provas, testemunhas, fazer exame de corpo de delito. Mas não é bom acionar a justiça no Brasil. Muita dor de cabeça, muitas audiências, tempo perdido, muito contato com o agressor, além da grande possibilidade de não conseguir nenhuma testemunha (ou ele conseguir alguém que diga que viu que realmente fui eu o causador da briga). Portanto, o ideal é manter distância, que é o que as pessoas normalmente fazem. Por isso que, num ônibus, ninguém tem coragem de pedir ao cidadão que desligue seu iPod chinês, tocando funk no último volume. As pessoas normais sabem que é perda de tempo, além de gerar um desgaste enorme. Você vai pedir, com toda educação, que abaixe o som, e como resposta receberá uma ameaça. Acredito que isto seja parte da convivência da espécie humana. O uso da violência e do porte físico é uma armadura a que as pessoas tentem contrariar alguém com estas características. Por isso, lamentavelmente, temos de tolerar alguns comportamentos que julgamos errados, pelo simples fato de que não há como ser ouvido. A pessoa que contraria as regras tácitas da sociedade certamente tem a característica da intolerância. Afinal, se tolerante fosse, não adotaria tal comportamento. Se colocaria no lugar do próximo e perceberia como o papel no chão ou a música alta atrapalha os demais. Temos de manter distância. Ou, na pior das hipóteses, nos juntarmos aos demais que também estejam indignados e, aí sim, interpelar o agressor, que não se convencerá do erro, mas pelo menos não poderá utilizar a violência.
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