15 de setembro de 2011

Sobre o aumento de IPI para veículos importados

As montadoras "nacionais" - leia-se Fiat, Ford, VW e GM, se borrando de medo dos chineses e coreanos, conseguiram o que queriam: a carga tributária para veículos importados será aumentada. A notícia foi dada na imprensa como uma medida de coragem do governo em favor do consumidor. Isso é obviamente uma falácia, já que esta medida irá favorecer somente as montadoras nacionais e prejudicar o consumidor, que terá menos opções à sua disposição. Ou, em outros termos, as opções continuarão existindo, mas custarão mais caro.

O que ocorre é que cada vez mais os consumidores brasileiros acreditam que os veículos importados são melhor opção para gastarem seu dinheiro. Os consumidores de outros paises já haviam percebido isso há tempos, visto que as exportações têm diminuído ano a ano, com exceção de alguns modelos vendidos na América Latina. Isto ocorre por culpa das próprias montadoras nacionais, que criaram uma situação peculiar no mercado brasileiro: ao surgir uma nova geração de um veículo, ela não substitui a antiga, mas convive com ela por muito tempo. Chega-se ao cúmulo de haver quatro gerações de um modelo convivendo simultaneamente, como na Fiat, com o Mille, Palio (que o deveria ter substituído), Novo Uno e o Punto (que deveria ter substituído o Palio). Em quase todo o mundo, quando uma nova geração é lançada, a antiga simplesmente morre, desaparece, e a nova entra no lugar ao mesmo preço da antiga. No Brasil, a antiga permanece com o mesmo preço e a nova geração chega custando até 50% a mais. Isto ocorre porque as montadoras daqui não quiseram abrir mão da margem de lucro em detrimento de oferecer algo de melhor qualidade ao cliente. Novas gerações, num primeiro momento, derrubam a margem da empresa, pois seu preço tem de amortizar os custos de desenvolvimento. Por aqui, escolheu-se ganhar com o antigo, que já teve seus custos pagos e oferece grande margem, e com o novo, que chega com posicionamento de valor muito superior ao que deveria, também garantindo boa margem. O comprador que valoriza o seu dinheiro e procura fazer uma compra racional, acaba optando pela geração antiga, pois não aceita pagar um alto preço apenas pelo fator novidade.

Essa estratégia funcionou por uns quinze anos por aqui, mas começou a dar sinais de desgaste. De repente os importados passaram a parecer mais atrativos que as velhas gerações fabricadas por aqui. E daí surgiu toda essa situação que culminou com a atitude do governo de aumentar o IPI dos importados.

O governo joga para a platéia, que nesse caso são as big four nacionais, e não a população consumidora. Se quisesse realmente favorecer os compradores, teria reduzido o imposto dos nacionais, e não aumentado o dos importados. Além disso, o protecionismo leva invariavelmente à deterioração das opções de escolha do consumidor, coisa que quem tem mais de 30 anos se lembra bem, quando a proibição de importações impedia a compra de eletrônicos e veículos de qualidade, deixando o Brasil isolado do resto do mundo.

Não acredito que os carros coreanos e chineses devam sofrer grande aumento de preço. O custo de produção nestes paises é bem mais baixo que no Brasil, e provavelmente terão margem para absorver este aumento. Mas fica uma pergunta: e os importados trazidos pelas próprias nacionais? A Fiat aumentará o preço do Cinquecento mexicano? A Ford aumentará o preço do Fusion? A VW aumentará o preço do Jetta? A GM aumentará o preço do Omega? Conhecendo o poder do lobby das big four e a incompetência do governo, não duvido que o decreto que aumentou a alíquota do IPI de veículos com menos de 65% de peças nacionais tenha uma cláusula do tipo "esta resolução tem efeito apenas para veículos provenientes da China e Coréia do Sul". É importante que nós, consumidores, cuidemos para que não se volte aos anos 80, quando as importações eram proibidas. Parece impossível que isso aconteça, mas não é, levando em conta os interesses dos fabricantes daqui aliados à péssima estratégia econômica do governo de proteção da indústria nacional por aumento de impostos, em vez de redução.

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