No post anterior, estava em dúvida se os importados pelas montadoras nacionais sofreriam o aumento. Pois bem, não sofrerão. O decreto foi feito para atingir cirurgicamente as marcas coreanas e chinesas. Montadoras aqui estabelecidas, e que atendem pelo menos 6 das 11 exigências contidas no decreto, podem importar veículos a vontade. Aliás, se alguém está tirando emprego dos brasileiros, é justamente as "nacionais" e sua enxurrada de veículos argentinos e mexicanos.
No entanto, analisando o mercado mais a fundo, chega-se a uma situação mais complexa, mas que pode ser facilmente assim resumida: fabricar automóveis no Brasil não vale a pena. Essa afirmação parece um absurdo, mas não é. Fabricar no Brasil é caro, uns 20% mais caro no México e, por incrível que pareça, atualmente custa mais fabricar aqui que na Europa ou nos EUA. Não pretendo dissecar os fatores que levam a essa carestia, mas isso é fato conhecido por todo o mercado. Pois bem, as consequências do "Fator Brasil", que torna tudo absolutamente caro, são as que conhecemos: as montadoras oferecem modelos defasados ou requentados, pois o custo de desenvolver ou trazer um novo ferramental para o país torna-se proibitivo ou muito arriscado; por isso vemos hoje essa enxurrada de mexicanos de categoria superior aos modelos fabricados aqui. Ao decidir centralizar a produção de veículos acima da classe "popular", optaram pelo México e Argentina, e não pelo Brasil.
Outra questão, pouco comentada, é que o lobby para o aumento do IPI não partiu apenas das "big four", mas também (e principalmente) das indústrias de autopeças e seus sindicatos. Este setor, muito mais que as montadoras em si, tem sofrido com a concorrência dos produtos importados e com o alto custo de produção local, tornando sua operação muitas vezes inviável. As autopeças não têm conseguido repassar o aumento de seus custos às montadoras, e estas têm optado cada vez mais por componentes europeus, americanos ou asiáticos. Por isso, embora o aumento do IPI valha apenas para o veículo pronto, e não para seus componentes, o decreto exigiu que pelo menos 65% das peças ou etapas de produção sejam realizadas localmente.
O governo federal, como já comentei, é hipócrita, mas sua atitude é até defensável do ponto de vista do interesse da produção local, visto que o risco de desindustrialização é real e vem ocorrendo na prática, por enquanto apenas no setor de autopeças. Mas, novamente, não é impossível que voltemos a ter montadoras aqui estabelecidas fechando suas portas. Como são incompetentes para tocar uma verdadeira política industrial que desonere toda a cadeia de produção (reforma tributária, infraestrutura, redução do custo de energia, etc, etc), por meio do aumento do IPI os governantes dizem proteger a indústria nacional e ainda por cima têm aumento de arrecadação. De quebra, com o muito provável aumento de preço dos nacionais, aumenta ainda mais sua arrecadação.
O interessante que tenho observado, tanto na internet, como em conversas com amigos e familiares, é que a população, especialmente a tão propalada "nova classe média", da qual inclusive faço parte, não comprou o discurso governamental de que o aumento visa a proteção dos empregos. Ninguém mais engole política industrial feita com base em aumento de impostos. O que as pessoas comuns querem, ao menos aquelas que trabalham e se sustentam com seu trabaho, é poder de escolha de produtos e serviços a preços razoáveis, e que o governo não encha o saco com política industrial feita com o bolso alheio.
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